20 de jun de 2009

Ampliação do parque exibidor é compromisso dos novos diretores da ANCINE

Um público formado por cineastas, produtores e atores deu o tom da cerimônia de posse da nova diretoria da Ancine, nesta sexta 19. O diretor-presidente da Agência Nacional do Cinema, Manoel Rangel, que foi reconduzido ao cargo, e os novos diretores Glauber Piva e Paulo Alcoforado foram empossados pelo ministro da Cultura, Juca Ferreira, em cerimônia realizada no Palácio do Capanema, Rio de Janeiro. Minutos antes do ato oficial, vários dos representantes do cinema brasileiro foram abordados pela imprensa e quase como um coro, a reivindicação era a mesa: ampliação do parque exibidor brasileiro. Trocando em miúdos: mais salas de cinema para que os filmes nacionais possam ser vistos por um público maior. A expectativa, pelo menos no discurso, parece ter sido respondida pelos novos diretores.


Reconduzido ao cargo de diretor-presidente após dois anos exercendo a função, Manoel Rangel, em seu discurso, destacou como prioridade da Ancine a ampliação do parque exibidor brasileiro voltado diretamente para municípios com mais de 100 mil habitantes e locais de grande concentração da classe C. “Outra frente de promoção ao acesso do filme nacional está no apoio às empresas distribuidoras brasileiras. Entendemos que uma forte aliança entre essas empresas e a produção nacional é necessária para colocar nossos filmes, de forma sustentada, ao alcance de um número maior de pessoas”, afirmou Rangel.


E, foi enfático ao repetir uma cobrança já conhecida em seus discursos desde sua 1º posse em 2005: mais abertura no mercado de TV por assinatura. Segundo ele, excetuando o Canal Brasil e outros canais independentes, obrigatórios pela Lei do Cabo, a participação do cinema brasileiro na TV paga é muito pequena. Em 2008, afirmou, os outros canais que não os independentes, exibiram 4,25 mil obras cinematográficas. Destas, apenas 45 eram brasileiras. “Uma maior abertura e um mercado mais forte incentivará o empresariado a investir em novos conteúdos, canais e programadoras.”


Entre os atores que prestigiavam o evento, Paulo Betti, cobrou radicalidade na política de fomento. “O maior parque exibidor é a sala de estar do brasileiro.” Por este motivo, diz ele: “meu maior desejo é que meus filmes sejam vistos na TV aberta, o caminho é este. Abrir estas portas para o cinema nacional.” Para o novo diretor Glauber Piva, “o cinema estimulou as novas convergências e é através delas que o cinema pode dar a grande virada”. Piva citou a importância de mídias como a internet, por exemplo, e defendeu o incentivo a produção independente para TV. “É infrutífero pensar cinema dissociado da TV.” disse. (veja seu discurso na íntegra)



Lembrou de alguns dos desafios que a diretoria da ANCINE deverá enfrentar nos próximos anos para garantir sustentabilidade ao mercado audiovisual brasileiro: “Devemos nos envolver mais no combate à pirataria, na elaboração de políticas de incentivo específicas para as videolocadoras, nas estratégias de colocação da nossa cinematografia nos mercados internacionais e no debate sobe a formulação de novos marcos regulatórios para a comunicação e para a cultura”. Glauber Piva é cientista social e foi secretário de cultura de Votorantim.



Entre os avanços, mas também se mantêem como desafios da Ancine, estão o gerenciamento e o bom funcionamento do Fundo Setorial Audiovisual. Na posse da Ancine em 2005, pelo então Ministro Gilberto Gil, a promessa era a de mais recursos para o cinema a fim de garantir a sustentabilidade do filme brasileiro no mercado com uma ação articulada para o desenvolvimento do setor. Para responder a esta demanda, em 2006, foi criado o Fundo do Audiovisual. Paulo Alcoforado, ex coordenador programa DOC-TV, da Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, em seu discurso, ressaltou a importância do Fundo desde sua criação, como possibilidade de desenvolvimento das co-produções como veículo de inserção do produto audiovisual brasileiro no mercado internacional. “A criação do Fundo Setorial do Audiovisual posiciona o Brasil, no atual contexto do sistema financeiro mundial, como importante co-produtor internacional em potencial. Essa condição facilitará a articulação de recursos financeiros no exterior para a produção nacional e projetará o cinema e audiovisual brasileiros nos mercados estrangeiros” disse.



Empossados pelo ministro Juca Ferreira, os novos diretores escutaram um pedido de continuidade da boa gestão. “Vamos continuar o bom trabalho que já estava sendo feito. Não podemos sentar para descansar diante do que já conseguimos.” disse Juca Ferreira, reiterando o compromisso do Ministério da Cultura em articular políticas públicas que promovam a consolidação da indústria audiovisual brasileiro.



Ana Carolina, do Rio de Janeiro
Na foto: Glauber Piva em seu discurso de posse.

14 de jun de 2009

OBSERVATÓRIO


Tomam posse, nesta sexta 19, os novos diretores da ANCINE (Agência Nacional do Cinema). Nomeados pelo Presidente Lula e aprovados pelo Senado Federal, três nomes assumirão a diretoria colegiada da agência. Manoel Rangel que foi reconduzido ao cargo de diretor-presidente da Agência, onde atua desde 2005. Paulo Alcoforado, ex-coordenador do programa DOC-TV, da Secretaria do Audiovisual, e o cientista social Glauber Piva, ex presidente da Fundação Cultural de Votorantim e ex coordenador do Setorial Nacional de Cultura do PT. Portanto, bom momento para fazer uma reflexão a respeito dos últimos números divulgados sobre a participação dos filmes brasileiros na distribuição total pelas salas de exibição.




Abaixo, minha contribuição ao tema:




Cinema nacional produz mais e distribui menos


Do público total de 89.960.164 mil pessoas que foram aos cinemas em 2008, apenas 9.143.052 assistiram aos filmes nacionais. Números estes divulgados em 2009 pela Ancine – Agência Nacional de Cinema revelam que a participação dos filmes brasileiros na distribuição pelas salas de audiovisuais é de somente 10%. Por outro lado, a produção de filmes brasileiros cresce a cada ano. Segundo dados também da Ancine, de três filmes em 1992 subiu para 29 em 2003, e cerca de 80 em 2007. Uma equação difícil de entender e resolver. Entre as causas do problema da crise de superprodução versus baixa de público, está a dificuldade em conseguir espaços nas salas de cinema e concorrer com os estúdios estrangeiros no preço dos ingressos. Na maioria dos festivais, o cinema brasileiro torna-se a vedete, geralmente ganhando prêmios ou pelo menos boas indicações. Porém, o otimismo do reconhecimento é ofuscado quando se olha para os números de bilheteria nacional.



Em 2008, durante o Festival de Cannes, Carlos Reichenbach diretor do filme “A Falsa Loira”, chegou a afirmar em entrevista para o jornal O Globo que ”nunca em 40 poucos anos de cinema tivemos condição tão precária de exibição”. Seu filme com orçamento considerado baixo de 3 milhões, captados por meio de leis de incentivo, estreou em apenas nove salas de cinemas. Sergio Sá Leilão, diretor da Ancine, na época, para responder a mesma questão disse que o aumento na produção vem do investimento público para a área do audiovisual, o que incentiva que cada vez mais profissionais da área corram atrás dos seus filmes. Porém, para ele, a causa da dissintonia entre público e produção está “na criação desvinculada do mercado gerando grande número de produtos pouco competitivos.”


Já para o co-produtor do filme paranaense Sal da Terra, Marcos Cordiolli, o problema está mesmo na concorrência desleal com os estúdios internacionais que passaram a disputar mercado lançando filmes simultaneamente com os concorrentes. Em sua opinião, portanto, “os estúdios passaram a programar filmes “pesos-pesados” em todos os meses do ano. Isto reduziu o espaço dos filmes nacionais e alternativos que ocupavam as grades de programação nos meses de baixa temporada nos períodos de abril/maio e agosto/setembro. Este espaço praticamente desapareceu em 2008 e 2009, porque a disputa entre os grandes estúdios ficou mais acirrada e com lançamentos competitivos durante o ano todo. As grandes distribuidoras também passaram a implementar contratos de exibição casada com as exibidoras obrigando-as a veiculação de filmes de menor audiência como forma de manter ocupadas as outras salas do mesmo pólo de exibição.” Lembra ainda que por estes motivos, “os filmes nacionais que não dispõem de grande estrutura e nem estão associados às grandes distribuidoras ficaram restritos a horários ruins como os da faixa das 17 horas. Horário ruim para quem trabalha e para quem estuda.”

Para driblar as dificuldades a produtora Labovideo, responsável pelo filme Sal da Terra, traçou estratégia diferenciada, o que vem permitindo um alcance significativo de público. Além da opção de abrir uma distribuidora própria, a “Cinema Nosso”, organizaram divulgação dirigida para nichos de público potencial do filme. “Atualmente já estamos com resultado significativo de público na região metropolitana de Curitiba. Pela temática do filme estamos montando, por exemplo, um sistema de exibição em postos de gasolina e eventos de caminhoneiros.” explica Cordiolli.


Texto: Ana Carolina Caldas