12 de dez de 2009

Para nunca esquecer o genocídio imposto ao povo ucraniano

por Ana Carolina Caldas
O ministro da Cultura da Ucrânia Vasyl Vovku veio ao Paraná, estado que abriga 90% de toda a imigração daquele país, e inaugurou ontem o monumento do Holodomor, no Parque Tingui, em Curitiba. Entre os pontos firmados pelo presidente Lula em recente visita àquele país, está o reconhecimento do Homolodor como genocídio, fato referendado pela Câmara Federal em setembro passado na aprovação de proposição do deputado paranaense Angelo Vanhoni (PT). Para quem não sabe, nos anos de 1932/33 a fome induzida matou milhares de ucranianos durante o processo de coletivização forçada pelos russos. ”A inauguração do momumento mantém viva a memória das vítimas desta tragédia”, afirmou Vitorio Sorotiuk, presidente da representação ucraniana no Paraná. Hoje o ministro Vovku foi visitar as cidade de Mallet e Prudentópolis e ficou emocionado ao descobrir que existe mais gente falando ucraniano no Paraná do que na própria Ucrânia. Disse se sentir em casa. Ontem a noite ele fez uma palestra na Sociedade Ucraniana e revelou que umas das primeiras ações iniciativas dele como ministro, quando tomou posse há 5 anos, foi mandar derrubar todos monumentos que lembram a epoca do genocídio e Joseph Stalin, o mentor de tal barbárie. Revelou que, por conta disso, já sofreu ameaças e que está se unindo aos ucranianos que imigraram para salvar o país, para libertar a ucrania que ainda sofre pressão da Russia. “Aqui no Paraná se tem liberdade para preservar as tradições”, afirmou. Na Ucrânia ele teve que baixar dereto para que os filmes das tvs e cinemas fossem legendados e dublados para o ucraniano, já que a língua oficial é a russa. O ministro também se emocionou ao assistir o filme “Made in Ucrânia”, do paranaense Guto Pasko, na Cinemateca de Curitiba. E ontem, durante a inauguração do monumento em Curitiba, uma mulher de 89 anos, dona Ana, que viveu os horrores do Holomodor, estava lá, em cadeira de rodas. Ao final da cerimônia, pegou duas bengalas e foi acender velas, chorando de emoção. Em tempo: a imprensa do Paraná, estado que, repita-se, abriga o maior número de ucranianos no Brasil, até agora ignorou tudo isso.

9 de dez de 2009

ENSAIO COM O CHICO

Todo sábado tinha Chico lá em casa!

Por Ana Carolina Caldas



“As pessoas não se dão ao trabalho de escutar um velho, e é por isso que há tantos velhos embatucados por aí, o olhar perdido, numa espécie de país estrangeiro”. (do livro Leite Derramado)



Segundo pesquisa divulgada no Encontro Internacional de Literatura Brasileira, no Rio, no início de dezembro, Chico Buarque está entre os autores mais lembrados hoje por estudiosos de literatura brasileira no exterior, à frente de nomes como Euclydes da Cunha (1866-1909) e Manuel Bandeira (1886-1968). Os coordenadores da pesquisa Felipe José Lindoso e Claudiney Ferreira, enviaram, desde 2007, questionários para mais de mil tradutores, pesquisadores e professores que se dedicam à literatura brasileira no exterior.

Há quem torça o nariz para o resultado. Afinal, os livros escritos pelo multiartista não estão figurados como os melhores. Mas, aqui vale o que ele faz com a memória dos seus receptores. A memória está como fio condutor no seu último livro: Leite Derramado. Ele sabe exalar história de todos os tipos sem ser pretensioso. Durante sua participação no FLIP, em Parati, em 2009, pude assisti-lo pela internet. E ao ser perguntado sobre este aspecto histórico dos seus livros, seja sobre contar em detalhes sobre lugares, contextos e/ou épocas, disse simplesmente que “a medida que envelhecemos as coisas do passado vão ficando mais nítidas”. Assim como o personagem de Leite Derramado. O livro traz o monólogo de um centenário à filha e enfermeiras sobre a origem mais longínqua de sua família, enquanto jaz num leito de hospital.

O livro, a história e suas músicas, de alguma forma – não sei se intencional, me remetem sempre às memórias, às lembranças da convivência também com os meus velhos, grandes contadores e escritores de histórias. E sem ser pretensiosa também, me aventuro a dizer que Chico Buarque fez parte da minha história. Ele me contou em cada década o que se passou. E é sobre esta memória afetiva que marca suas obras “cantantes” ou “letradas”, que eu rememoro as histórias com o Chico.

Em 2007, fui com meus pais no show do Chico, em Curitiba, no Teatro Guaira. Essa foi a combinação perfeita. Meus pais e o Chico. Primeiro os meus pais - são as pessoas mais iluminadas e intensas que eu conheço. Os dois têm os olhos sempre brilhando cheios de amor e compaixão. Os dois andam juntos ainda se aventurando, aprendendo e amando a vida. E o Chico? Foi com eles que aprendi a me encantar com o Chico Buarque.

Foi inevitável a choradeira. Passou um filme todinho da minha infância. Eu me lembrei dos sábados na minha casa. Janelas abertas, cheirinho de café na cozinha e lá na sala bem alto eles já tinham colocado o Chico pra tocar. Sim, era desse jeito que a gente começava o sábado. Eu, minhas duas irmãs e meu irmão.

Lembrei também de um dia frio e minha mãe, creio desesperada com tanta criança em casa. Mas ela, nossa professora, sempre dava um jeito de inventar alguma brincadeira. E naquele dia colocou o disco Saltimbancos pra tocar e depois propôs: ”Vamos brincar de teatro!? Vamos fazer Saltimbancos?”. Ensaiamos, decoramos e depois noite adentro repetimos não sei quantas vezes a peça.

Chico Buarque escreveu Saltimbancos carregado de tantas e tantas ideologias, assim como em outras músicas suas. Porém, nem ele mesmo depois sabe explicar por que. Porém, a peça enquadrada mais tarde na categoria infantil é de 1977, auge da ditadura militar. Chico Buarque adapta Os saltimbancos, texto do italiano Sergio Bardotti inspirado no conto “Os músicos de Bremen”, dos irmãos Grimm. Esta adaptação de uma fábula musical primordialmente destinada ao público infanto-juvenil dá seqüência a sua criação de um teatro dialético, o autor põe em discussão as formas de organização social num momento em que se começava a falar em abertura política e as entidades reprimidas pelo aparato de “segurança” da ditadura buscavam o debate acerca de sua rearticulação.

Depois, quando a infância já se ia longe, nós, meus irmãos e eu, começamos a entender algumas conversas dos meus pais e também entendemos alguns significados das músicas do Chico. Ditadura, exílio, entre outros. Participei do Movimento Estudantil e as músicas da infância estavam ali me fazendo entrar no encantamento do “sonho revolucionário de mudar o mundo”. Ah... como cantei o "Apesar de Você" quando estava “contra atacando” os inimigos da democracia, do socialismo... Diga-se de passagem, minha música preferida.

Aliás, há bastante polêmica sobre as entrelinhas desta letra. Há uns anos atrás Chico Buarque em entrevista para o “Fantástico” disse que a música não queria dizer o que o Brasil cantava. Ou seja, que apesar de você não dirigia-se aos militares. De alguma forma, Chico Buarque, querendo ou não, hoje é lembrado como um dos porta-vozes da luta contra a ditadura. Uma das mais atuantes frentes de oposição ao regime instalado no país em abril de 1964 foi formada por artistas, especialmente por jovens talentos surgidos no decorrer dos anos 60. A carreira de Chico Buarque nas artes começou no mesmo ano do último golpe militar da história brasileira, 1964. Sua obra produzida durante o regime ditatorial, especialmente seu teatro, dialogou a todo o momento com seu tempo.

Uma das últimas coleções do cantor categoriza as músicas em CDS: Chico Político, Chico Romântico... Sim, quem nunca suspirou com e pelo Chico! Quantas vezes nossa mãe nos viu – nós meninas de casa – românticas assumidas, chorando, cantando, amando... pelos amores embaladas pela “Todo sentimento” ou “Futuros Amantes”. E como é sempre muito engraçado ouvir o meu pai dizer “Sou o cara mais corno manso que existe”, quando a minha mãe suspira ao ver o Chico...

Ah! Como foi bonito no show, eu de vez em quando de rabo de olho, espiar a minha história ao lado sentada comigo e ali na frente... no palco. Eu chorei tanto porque tudo aquilo tem o cheiro da minha casa, da gente toda reunida, do barulho dos meus irmãos, das músicas, do meu pai sentadinho na frente da vitrola (isso mesmo: vitrola!) escutando e cantando, da minha mãe de um lado pro outro arrumando a casa e cuidando de todo mundo. Enquanto o Chico andava por lá embalando os nossos sábados, os nossos laços, a nossa vida...


Exagero? Não... não é não. Só saudades...
E, pra mim, o Chico será bem lembrado, sempre!