07/10/2009

Mais um prêmio para filme de animação paranaense inspirado em livro de Leminski



Belowars é o longa metragem de animação que acaba de receber mais um prêmio, agora do Festival de Alta Floresta no Mato Grosso. A idéia do filme Belowars surgiu quando o diretor e roteirista Paulo Munhoz leu o livro Guerra Dentro da Gente, de Leminski. O filme é uma adaptação do livro para a tela, feita por ele e Érico Beduschi. Paulo Munhoz, um dos mais festejados profissionais da animação paranaense, conta para nós sobre o filme, projetos futuros e outras coisinhas bem animadas. Confira entrevista:

Fala um pouco sobre os prêmios do Belowars e em especial o do Festival de Alta Floresta no Mato Grosso.

Acabo de receber o troféu - MAGNÍFICO - uma capivara entalhada em madeira. É impressionante. A ALTA FLORESTA É NOSSA, de certa forma esse prêmio é uma mensagem dos deuses em relação à nossa nova produção - A FLORESTA É NOSSA.
Esse é um prêmio importante, pois o filme concorreu com documentários e ficções do Brasil, ou seja, não estava restrito ao campo da animação. Ainda hoje, é difícil um filme animado de longa-metragem ter o mesmo tratamento que o dado a filme que aparecem nas telas com sua imagem. Assim, Belowars recebe reconhecimento de sua qualidade.

Já temos o prêmio de melhor música do Festival de Maringá, o de Melhor Roteiro do Animage, além de termos sido selecionados para diversos festivais como Anima Mundi, Granimado, Festival Internacional de Animação da China, etc.

Além disso, o filme foi convidado para o evento Ocupação Paulo Leminski do Itaú Cultural que ocorre agora em novembro.



O que é Belowars? A idéia do filme começou como, quando e por quê?


BELOWARS é uma palavra da língua belowárica, criada por mim mesmo, para o filme.
Procurei fazer uma obra quase totalmente visual, com pouquíssimos diálogos, os quais são nessa língua que quer ser universal. Numa mistura de Latim e anglo-saxão BELOWARS significa GUERRA (BELO=GUERRA, WAR=GUERRA). No filme, essa palavra é usada como grito de guerra dos dois exércitos que se encontram. Há uma segunda leitura que seria BELOW - "BAIXO", ARS - ARTE. Ou seja, a guerra como a arte baixa. A idéia do filme surgiu quando eu li o livro Guerra Dentro da Gente, do Leminski. O filme é uma adaptação do livro para a tela, feita por mim e pelo Érico Beduschi.

Achei o texto super-cinematográfico e partimos para o projeto, com a autorização e total apoio da Alice Ruiz, Áurea e Estrela Leminski. É um projeto já bem antigo, do qual eu estava quase desistindo.


E vc Paulo Munhoz, começou como "animador" como, quando e por quê? (hehehee)


Essa é uma pergunta difícil. Certo dia, quando eu tinha já uns 23 anos eu me fiz a seguinte questão: O que eu quero fazer da vida? Que atividade me daria a possibilidade de pesquisa em qualquer tido de conteúdo, para cada novo trabalho? Que atividade me daria a chance de lidar com arte e tecnologia, duas grandes paixões? Que atividade me daria a chance de influenciar o mundo? Na hora eu vi projetado no ar, como um holograma, a palavra cinema. Era um domingo à tarde, não consegui dormir, no outro dia eu estava na biblioteca pública iniciando minha formação autodidática em cinema. Nessa época eu fazia Engenharia Mecânica na UFPR, trabalhava à noite na Caixa Econômica e estava envolvido com movimentos ambientalistas que fundariam o PV no Paraná.

Acho que o vírus da Animação eu havia contraído muitos anos antes, quando eu tinha uns 16 anos, estudava no CEFET e fui convidado para a semana do Canadá. Meu primeiro mergulho numa semana "cultural". Lá eu vi vários filmes do Normam Mc Laren que nunca me saíram da cabeça.


Belowars em Curitiba como, quando e por quê?

Ainda não sei quando vamos lançá-lo em Curitiba. Estou envidando esforços para conseguir distribuí-lo. Gostaria de lançá-lo comercialmente. Está difícil.



Animação tá indo para onde? Como vc avalia em Curitiba e no país?


A animação é o campo audiovisual que mais cresce no Brasil e no mundo, graças à disponibilização de recursos via computação e novos meio de comunicação.
Do ponto de vista comercial, é o campo com maiores condições de virar indústria, gerar negócios, renda e emprego. Curitiba está bem posicionada no cenário nacional graças ao trabalho de alguns artistas. Curitiba tem vocação para essa atividade, pois une traços e visões de muitas partes do mundo pela sua herança étnica e tem o clima mais propício para a atividade. Além disso, tivemos os primeiros cursos de animação do Brasil, graças ao Valêncio Xavier e um dos primeiros grupos de Stop Motion - Irmãos Wagner.

Ou seja, Curitiba poderia ser o mais importante locus de produção do país. Infelizmente, nossos gestores públicos ainda não entenderam isso. Assim, estamos perdendo terreno para cidades que não tinham tanta tradição, como Florianópolis, por exemplo, que adotou a produção de um longa e o transformou em atração turístico-tecnológica-educativa.


Quais são os próximos projetos?

Estamos produzindo um novo longa, intitulado A FLORESTA É NOSSA.
É uma aventura planetária, com os personagens Brichos. É um enunciado audiovisual pelo desenvolvimento sustentável e ao mesmo tempo uma boa oportunidade de entretenimento. Fizemos um grande trabalho de re-design dos personagens, melhoramos bastante o visual e cremos estar construindo um filme impactante.


Vc tem como dar um conselho para quem tem vontade de entrar nessa?
Entre nessa!!!



Entrevista por Ana Carolina Caldas



27/09/2009

Gênero Humano, artigo do Deputado Federal Dr. Rosinha


Vim viver em Curitiba no início de 1969. Anos duros de ditadura, mas eu não sabia. Não sabia o que era uma ditadura. Vim do sítio direto para a capital, e aqui eu era o verdadeiro capiau. Tudo novidade e tudo obscuro. Tudo curiosidade e medo. Tudo esperança e preocupação: e se não der certo? Vim morar na Rua Riachuelo. Era o único local possível de se morar com pouco dinheiro. A noite na Riachuelo, para um capiau como eu, era tomada de assombro, curiosidade e o cheiro de sexo das prostitutas que por lá vagavam. Também andavam por lá alguns gays.


Fui morar numa pensão onde, algum tempo depois, conheci um gay. Um bancário que trabalhava no Bradesco. Na mesma pensão, morava também um estudante vindo do interior que só saía com gays. Era um homossexual e negava. Era tudo enrustido, tudo oprimido. Era a ditadura.
Ambos, capiaus e homossexuais, éramos rejeitados pela sociedade curitibana. Excluídos, construíamos nossos próprios habitats, mundos, vidas. Os capiaus, com muito estudo e esforço, iam individualmente e aos poucos se inserindo na sociedade. Através do trabalho e de casamentos, conquistaram seus espaços sociais.



A comunidade de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT) continua na árdua batalha da afirmação: sou gênero humano, mereço respeito e tenho direitos.



De início, alguns poucos se autoidentificam como homossexuais. Hoje, já organizados em várias ONGs, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais lutam por dignidade. E um importante ato político é a Parada da Diversidade, que une milhares de pessoas em vários cantos do mundo.
A importância política de atos como esse é demonstrada pelo próprio tema que abordam. O tema da edição deste ano da Parada da Diversidade em Curitiba (”Seus direitos, nossos direitos, direitos humanos”) deixa claro pelo que clamam.



Clamam pelo direito de inclusão e de identidade social e pelo fim do preconceito. São homens e mulheres que têm direito à identidade e não ao tratamento pejorativo de “viado” ou “sapatão”, como usualmente são chamados e chamadas.



As paradas da diversidade servem para pôr a cara pra fora, dar o grito de identidade e mostrar à sociedade que, na rua, caminha mais um filho seu que quer paz, liberdade e justiça. Por isso, também pedem “o fim da violência e da impunidade”.



Assim como os capiaus, as pessoas LGBT conquistarão seus direitos, se libertarão da ditadura da sociedade e construirão a sua identidade e visibilidade.



Sair da opressão da noite, para o sol da igualdade. Por isso lutamos.



Dr. Rosinha, médico pediatra, é deputado federal e coordenador da Frente Parlamentar LGBT na região Sul do país.

http://www.drrosinha.com.br/



[*] Artigo publicado no jornal da Parada da Diversidade de Curitiba, que acontece no próximo dia 27 de setembro de 2009.

Foto: Joka Madruga